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BNB Cultural espalha ritmos regionais pela Grande Aracaju e transforma a cena musical em vetor de desenvolvimento

Com agenda que passou por Aracaju e segue pelo fim de semana em São Cristóvão e na Orla da Atalaia, circuito articulado ao Prodeter reforça a cultura como motor de identidade, turismo, circulação de renda e fortalecimento de cadeias produtivas em Sergipe

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BNB Cultural espalha ritmos regionais pela Grande Aracaju e transforma a cena musical em vetor de desenvolvimento
Joésia Ramos
Foto: Divulgação

A programação desta semana do Circuito Banco do Nordeste Cultural na Grande Aracaju ajuda a explicar, na prática, como a música pode funcionar ao mesmo tempo como expressão artística, ocupação simbólica da cidade e engrenagem de desenvolvimento local. A agenda foi aberta na quinta-feira, 16 de abril, com o show “Mestiça Raiz”, de Joésia Ramos, no The Stones Pub, em Aracaju; continua no sábado, 18, com o grupo Casaca de Couro e o projeto “Nosso Forró é um Show”, na Rua Gastronômica de São Cristóvão; e chega ao domingo, 19, com Ronise Ramos no Maria Farinha Bar e Restaurante, na Orla da Atalaia. Mais do que uma sequência de apresentações, o circuito revela uma estratégia que põe artistas, bares, restaurantes, público e território para dialogar em rede.

Essa leitura ganha força quando se observa a própria política cultural do Banco do Nordeste. Na área de cultura, a instituição informa que sua atuação se baseia no acesso às manifestações artístico-culturais locais e nacionais e mantém uma agenda cultural própria, além de ações de apoio financeiro ao setor. Em outras palavras, não se trata apenas de patrocinar eventos isolados, mas de inserir a cultura numa lógica mais ampla de circulação, memória, difusão e sustentabilidade econômica.

No caso da Grande Aracaju, isso aparece de forma particularmente interessante porque os shows não ficam restritos a teatros ou palcos convencionais. Eles entram em pubs, ruas gastronômicas e restaurantes, ativando espaços que já fazem parte da economia urbana e do imaginário de lazer do público. A música, nesse modelo, não chega como enfeite: ela reorganiza a experiência do lugar, alonga permanências, atrai novos frequentadores, estimula consumo, valoriza artistas e fortalece a ideia de que turismo, gastronomia e cultura podem ser pensados em conjunto. Essa é justamente uma das chaves do Prodeter, programa do Banco do Nordeste voltado a fortalecer cadeias produtivas, integrar políticas públicas, ampliar a competitividade regional e organizar governanças locais e territoriais.

A abertura da programação com Joésia Ramos aponta para esse encontro entre identidade local e diversidade estética. No show “Mestiça Raiz”, a artista apresenta repertório autoral apoiado em baião, samba de roda, mambo e bolero, numa costura que foge de qualquer visão estreita sobre o que seria “música regional”. A própria presença de Joésia no circuito conversa com essa proposta: em seu perfil oficial, ela se apresenta como cantora, compositora, instrumentista, atriz, arte-educadora e produtora cultural sergipana, o que revela uma trajetória múltipla, típica de artistas que não atuam apenas no palco, mas também na formação, na criação e na articulação cultural.

Ronise RamosRonise Ramos

Há aí um simbolismo importante. Quando uma artista com esse perfil abre um circuito que passa por diferentes pontos da Grande Aracaju, o que se coloca em cena não é somente um repertório, mas uma ideia de mestiçagem cultural como valor. Baião, samba de roda, mambo e bolero não surgem como referências acidentais; juntos, eles desenham uma escuta aberta, mestiça e latino-nordestina, capaz de aproximar tradição e trânsito contemporâneo. Em vez de tratar a herança regional como peça de museu, o show a recoloca em circulação, num ambiente cotidiano, acessível e conectado à vida noturna da cidade.

No sábado, a programação muda de tom sem perder coerência. O grupo Casaca de Couro assume a agenda em São Cristóvão com o projeto “Nosso Forró é um Show”, levando ao público um repertório ancorado no forró pé de serra e inspirado em mestres como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. O próprio site oficial da banda destaca essa identidade ligada ao forró pé de serra e registra, em sua agenda, a apresentação do Circuito Banco do Nordeste Cultural em 18 de abril de 2026. Isso dá ao show um duplo peso: de um lado, a celebração de uma tradição central na formação da música nordestina; de outro, a atualização dessa tradição em circuito urbano e turístico, diante de um público que hoje consome cultura de maneira mais híbrida, entre mesa, rua, encontro e memória.

A escolha de São Cristóvão, aliás, não parece casual. Em uma cidade cuja força histórica e patrimonial já ocupa lugar central na paisagem cultural sergipana, o forró de raiz encontra terreno fértil para ganhar densidade simbólica. Ao instalar o show na Rua Gastronômica, o circuito reforça a noção de que a experiência cultural contemporânea é cada vez mais integrada: ouvir música, circular pela cidade, consumir no comércio local e reconhecer o valor de uma tradição popular passam a fazer parte de um mesmo gesto. É uma forma inteligente de aproximar fruição artística e dinamização econômica sem esvaziar a identidade do conteúdo apresentado.

No domingo, a agenda segue para outro registro com Ronise Ramos, marcada para 12h30 no Maria Farinha Bar e Restaurante, na Orla da Atalaia. O texto de divulgação descreve um “cardápio musical eclético”, indo do rock ao forró, e esse perfil encontra eco em registros públicos sobre a cantora. Em publicação institucional do Governo de Sergipe, Ronise é descrita como artista de repertório amplo, capaz de transitar entre rock e forró conforme o público, além de manter diferentes projetos musicais; já em seu canal oficial no YouTube, ela se apresenta como cantora nascida em Caratinga, em Minas Gerais, e radicada em Sergipe há anos. Também há registro da Prefeitura de Aracaju destacando sua atuação à frente da Banda Severina em programação cultural da cidade.

Essa presença de Ronise no domingo, em horário de almoço e à beira-mar, ajuda a ampliar a inteligência da curadoria do circuito. Depois de uma abertura marcada pela fusão de matrizes nordestinas e latinas e de uma noite de sábado dedicada ao forró de raiz, o encerramento da rodada aposta numa artista que dialoga com diferentes públicos e repertórios. Isso aumenta o alcance da programação e reforça um princípio importante: política cultural eficaz não precisa apostar numa única linguagem para afirmar identidade. Ao contrário, pode reconhecer que o regional também é plural, urbano, atravessado por memórias diversas e por escutas que vão do cancioneiro tradicional a referências do rock e da música pop.

Grupo Casaca de CouroGrupo Casaca de Couro

Essa compreensão aparece com clareza em outra frente do Banco do Nordeste Cultural: o programa Ecossistema Musical. Segundo o banco, a iniciativa foi criada para fortalecer a cadeia produtiva da música, desenvolver ações estratégicas de difusão da produção musical e estimular articulações entre cenas e redes culturais. O projeto abrange os 11 estados da área de atuação do Banco do Nordeste, contou com 27 pesquisadores e reuniu coletâneas com mais de 100 horas de música em cada plataforma, justamente para demonstrar a riqueza e a diversidade da produção do chamado “Nordeste Expandido”, para além do rótulo simplificador de “regional”.

É sob essa lente que a programação da Grande Aracaju ganha maior relevância. Não se trata apenas de três shows em sequência, mas de uma amostra concreta de como o banco vem tentando operar cultura como ecossistema: artistas locais e regionais em circulação, ocupação de espaços de convivência, fortalecimento de públicos, estímulo à cadeia de serviços e valorização de repertórios que dialogam com o território sem se limitar a uma caricatura dele. O circuito, portanto, não é só agenda; é metodologia de presença cultural.

No eixo do desenvolvimento territorial, o Prodeter ajuda a traduzir esse desenho em linguagem institucional. O programa informa que atua para potencializar a competitividade das atividades produtivas regionais, com construção e implementação de planos de ação, dotação orçamentária para financiamentos, fortalecimento da governança por meio de comitês e integração de políticas públicas necessárias ao desenvolvimento local e territorial. Entre seus objetivos oficiais estão fortalecer cadeias produtivas priorizadas, incorporar inovação tecnológica, ampliar a participação de agentes econômicos locais, promover financiamento integrado e articular políticas públicas para o desenvolvimento.

Em Sergipe, os números mostram que esse arranjo vem sendo ampliado. Em notícia oficial publicada pelo Banco do Nordeste em abril de 2025, o Prodeter passou a contar com 23 frentes de trabalho e cobertura de 14 territórios no estado. O banco informou ainda que, em 2024, mais de 570 pessoas foram beneficiadas pelos planos de trabalho do programa em Sergipe e que, em cinco anos, R$ 826 milhões foram destinados em contratos de crédito por meio do Prodeter no estado. Esses dados ajudam a enxergar a cultura não como setor periférico, mas como parte de um conjunto mais amplo de políticas de desenvolvimento territorial.

O ponto talvez mais revelador para entender a importância do circuito na Grande Aracaju está justamente no trecho em que o próprio Banco do Nordeste explica a conexão entre música, bares, restaurantes e economia urbana. Segundo a instituição, embora grande parte das ações do Prodeter esteja na área rural, o programa também atua em ambientes urbanos, como ocorre nas ações integradas em turismo e cultura. O banco afirma que iniciou um trabalho de estímulo a bares e restaurantes da Grande Aracaju em parceria que leva música a esses espaços com patrocínio do Banco do Nordeste Cultural, e relaciona a essa dinâmica resultados como a dinamização da gastronomia local e o aumento de 18% nas contratações de crédito do setor, que chegaram a R$ 4,4 milhões em 2024.

Esse dado é decisivo porque desloca a discussão da esfera abstrata para o cotidiano da cidade. Quando um show é levado a um pub, a uma rua gastronômica ou a um restaurante à beira-mar, a política cultural deixa de ser percebida apenas pelo prisma do palco e passa a aparecer também no caixa do pequeno negócio, na circulação de trabalhadores, na ativação do bairro, na fidelização de público e na imagem do destino. Em tempos em que muitos debates sobre cultura se restringem ao evento pontual ou ao alcance em redes sociais, o circuito mostra uma camada menos visível, porém mais estruturante: a cultura como indutora de economia local.

Ao mesmo tempo, o valor artístico da programação impede que tudo seja reduzido a indicador econômico. Joésia Ramos leva uma proposta autoral marcada por misturas; Casaca de Couro reafirma a centralidade do forró pé de serra e da linhagem de Gonzaga e Jackson; Ronise Ramos fecha o percurso com repertório elástico e vocação para dialogar com públicos distintos. Juntas, essas três apresentações formam uma espécie de retrato condensado da própria música produzida e consumida em Sergipe: enraizada, mas móvel; regional, mas não fechada; popular, mas complexa.

No fim das contas, o BNB Cultural acerta ao apostar numa programação que não separa arte de território. Ao ocupar Aracaju e São Cristóvão com sonoridades que vão do baião ao bolero, do forró tradicional ao repertório eclético de bar e praia, o circuito reforça uma ideia que o Banco do Nordeste vem sustentando em suas políticas e programas: desenvolvimento não é apenas crédito, nem apenas infraestrutura, nem apenas estatística. Desenvolvimento também é repertório, encontro, memória, circulação simbólica e capacidade de transformar a identidade de um lugar em presença viva, consumida, compartilhada e economicamente relevante.

Charlene Bastos

Editora-chefe da revista eletrônica INSTAMag, é uma comunicadora apaixonada por criar conteúdos envolventes, relevantes e informativos para um público dinâmico e conectado. Com olhar estratégico e sensibilidade editorial, lidera a produção com criatividade, autenticidade e compromisso com a qualidade, transformando informação em experiências que informam, inspiram e engajam.

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