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Dia Mundial do Rock celebra a força de um gênero que atravessou gerações e transformou comportamentos

Comemorado principalmente no Brasil, o 13 de julho relembra o histórico Live Aid e reforça a importância cultural, social e artística de uma música que continua se renovando

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Dia Mundial do Rock celebra a força de um gênero que atravessou gerações e transformou comportamentos
Foto: Divulgação

Celebrado nesta segunda-feira, 13 de julho de 2026, o Dia Mundial do Rock voltou a mobilizar admiradores, músicos, produtores culturais, emissoras de rádio, casas de shows e integrantes da cena independente em diferentes regiões do Brasil. Embora carregue a palavra “mundial” em sua denominação, o reconhecimento da data permanece muito mais forte entre os brasileiros do que em outros países. A escolha do dia está associada ao Live Aid, evento beneficente realizado em 13 de julho de 1985, simultaneamente no Estádio de Wembley, em Londres, e no Estádio John F. Kennedy, na Filadélfia, nos Estados Unidos. Quarenta e um anos depois daquele encontro histórico, a celebração continua funcionando como um momento de memória, reflexão e defesa de um gênero que ultrapassou os limites da música para influenciar a moda, a linguagem, o comportamento, o cinema, a publicidade, as artes visuais e diferentes movimentos sociais. A data não foi oficialmente instituída por uma organização internacional, mas ganhou força no Brasil a partir da divulgação promovida por emissoras de rádio especializadas, principalmente durante os anos 1990, consolidando-se no calendário cultural do país.

O Live Aid foi organizado pelos músicos Bob Geldof e Midge Ure com o objetivo de arrecadar recursos para o enfrentamento da fome na Etiópia. Durante aproximadamente 16 horas, artistas de diferentes estilos se apresentaram em uma transmissão acompanhada por uma audiência estimada em cerca de 1,5 bilhão de pessoas, espalhadas por mais de uma centena de países. Queen, U2, David Bowie, The Who, Dire Straits, Black Sabbath, Elton John, Paul McCartney, Madonna, Eric Clapton, Mick Jagger, Tina Turner e uma formação especial do Led Zeppelin estiveram entre os nomes envolvidos. Phil Collins protagonizou um dos episódios mais lembrados ao participar da programação em Londres e, após viajar em um avião supersônico, também subir ao palco na Filadélfia. A ideia de transformar aquele 13 de julho em uma data dedicada ao rock teria surgido no ambiente do próprio evento, mas não encontrou repercussão institucional fora do Brasil. O que permaneceu foi o simbolismo de uma mobilização que utilizou a música como instrumento de solidariedade, projetando mundialmente uma causa humanitária e demonstrando a capacidade dos artistas de chamar a atenção para problemas que, até então, recebiam cobertura limitada. Estimativas indicam que o Live Aid arrecadou mais de US$ 100 milhões, tornando-se uma das maiores iniciativas beneficentes da história do entretenimento e abrindo caminho para outros concertos de caráter social.

Apesar de o Live Aid ter fornecido a referência para a comemoração brasileira, a história do rock começou décadas antes e não pode ser compreendida sem o reconhecimento de suas raízes negras. O gênero nasceu da combinação de elementos do blues, do rhythm and blues, do gospel, do boogie-woogie, do jazz e da música produzida pelas comunidades afro-americanas, incorporando ainda influências da música country, do folk e do bluegrass. Artistas como Sister Rosetta Tharpe, Chuck Berry, Little Richard e Fats Domino tiveram participação decisiva na criação da linguagem musical que se espalharia pelo mundo a partir das décadas de 1940 e 1950. Com sua guitarra elétrica, sua potência vocal e sua presença de palco, Sister Rosetta já antecipava características posteriormente associadas aos grandes guitarristas do rock. Chuck Berry ajudou a estabelecer a estrutura instrumental e narrativa do gênero, enquanto Little Richard transformou o palco em um espaço de energia, provocação e liberdade. A popularização promovida posteriormente por artistas como Elvis Presley ampliou o alcance comercial daquela sonoridade, mas também produziu debates sobre apagamento, apropriação cultural e reconhecimento dos verdadeiros pioneiros. Celebrar o rock, portanto, exige recordar que sua origem está profundamente ligada à criatividade negra, às igrejas, aos clubes, às rádios e aos espaços de convivência de populações que enfrentavam segregação e desigualdade nos Estados Unidos.

Ao longo das décadas seguintes, o rock deixou de representar apenas uma fórmula musical baseada em guitarra, baixo e bateria. Tornou-se uma grande árvore composta por vertentes como rockabilly, psicodelia, hard rock, heavy metal, punk, rock progressivo, glam rock, hardcore, thrash metal, grunge, indie, britpop, pós-punk, pop punk, metal alternativo, nu metal, emo e inúmeras experiências híbridas. Cada transformação correspondeu a um período histórico, a uma inquietação estética ou a uma mudança social. Nos anos 1960, o gênero acompanhou movimentos pelos direitos civis, manifestações contrárias a guerras e revoluções comportamentais. Na década de 1970, expandiu sua complexidade técnica, tornou-se mais pesado e também reagiu aos excessos da indústria por meio da simplicidade agressiva do punk. Nos anos 1980, ocupou estádios, rádios e canais de televisão, ao mesmo tempo em que alimentou circuitos subterrâneos de metal, hardcore e música alternativa. A década de 1990 apresentou ao grande público a angústia do grunge e a diversidade do rock alternativo, enquanto os anos 2000 e 2010 aprofundaram a mistura com rap, música eletrônica, pop, funk, reggae e ritmos regionais. Essa capacidade de absorver influências explica por que o rock sobreviveu às sucessivas previsões de desaparecimento. Mais do que uma sonoridade rígida, ele se estabeleceu como uma linguagem aberta à transformação, ao conflito, à experimentação e à contestação.

No Brasil, a trajetória do gênero também foi marcada pela mistura. As primeiras experiências do rock nacional ganharam projeção no final dos anos 1950, quando intérpretes como Celly Campello ajudaram a popularizar uma música ainda fortemente influenciada pelos Estados Unidos. Posteriormente, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa e outros artistas da Jovem Guarda aproximaram as guitarras do cotidiano dos jovens brasileiros. O tropicalismo ampliou essa transformação ao colocar lado a lado instrumentos elétricos, referências estrangeiras, ritmos nacionais e uma postura de enfrentamento ao conservadorismo. Os Mutantes, Rita Lee, Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil participaram de um período em que a guitarra elétrica deixou de ser vista apenas como um símbolo importado e passou a integrar uma discussão profunda sobre identidade cultural. Raul Seixas construiu uma obra própria ao misturar rock, baião, filosofia, crítica social e elementos da cultura nordestina. Secos & Molhados rompeu padrões estéticos e comportamentais, enquanto nomes como Made in Brazil, Casa das Máquinas, O Terço e Patrulha do Espaço fortaleceram diferentes vertentes durante os anos 1970.

A década de 1980 representou uma das fases de maior exposição comercial do rock brasileiro. A redemocratização, o crescimento das rádios FM, o surgimento de grandes festivais e a expansão das gravadoras criaram condições para que bandas e artistas transformassem insatisfações políticas, dúvidas existenciais e experiências urbanas em canções de grande alcance. Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ira!, Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, RPM, Kid Abelha, Plebe Rude, Camisa de Vênus e Ultraje a Rigor ocuparam rádios, programas de televisão e grandes palcos. As composições abordavam censura, violência, desigualdade, relacionamentos, sexualidade, juventude e frustrações diante das instituições. O período não representou toda a diversidade do país, pois o mercado fonográfico continuava concentrado principalmente no eixo Rio–São Paulo, mas consolidou um repertório que permanece presente na memória popular. Paralelamente, o cenário pesado produziu grupos como Sepultura, Sarcófago, Korzus, Vulcano e Dorsal Atlântica, que ajudaram a projetar o metal brasileiro internacionalmente. A ascensão do rock nacional ocorreu diretamente ligada ao processo de redemocratização e à tentativa de interpretar um país que saía de um longo período autoritário.

Nas décadas posteriores, o gênero perdeu parte do espaço dominante nas grandes rádios e emissoras de televisão, mas não desapareceu. Passou por novas configurações e encontrou outros caminhos de circulação. Raimundos, Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp, O Rappa, Charlie Brown Jr., Skank, Pato Fu, Los Hermanos, Angra, Krisiun, Detonautas, CPM 22, Fresno, Pitty, Dead Fish e várias outras formações comprovaram que o rock brasileiro não estava limitado à geração de 1980. O manguebeat, especialmente, mostrou como guitarras, maracatu, hip-hop, embolada e música eletrônica poderiam dialogar sem que uma influência anulasse a outra. O álbum “Da Lama ao Caos”, lançado por Chico Science & Nação Zumbi em 1994, tornou-se um marco ao projetar nacionalmente uma movimentação cultural surgida no Recife e conectada às contradições sociais, tecnológicas e urbanas da capital pernambucana. Em diferentes estados, bandas passaram a incorporar sotaques, instrumentos e ritmos locais, demonstrando que o rock produzido no Brasil poderia ser tão nordestino, amazônico, mineiro, gaúcho ou periférico quanto internacional.

Em 2026, a sobrevivência do rock depende menos da presença permanente nas grandes paradas e mais da construção de comunidades. Festivais, casas de shows, bares, estúdios, selos, coletivos, canais de internet, podcasts, rádios digitais, lojas especializadas e produtores independentes formam uma rede responsável por manter o gênero ativo. As plataformas digitais facilitaram a distribuição de músicas, vídeos e registros ao vivo, permitindo que uma banda alcance ouvintes sem depender inicialmente de uma grande gravadora. Ao mesmo tempo, a abundância de lançamentos tornou a disputa por atenção mais intensa e transferiu aos próprios artistas tarefas de divulgação, administração, produção audiovisual e relacionamento com o público. O cenário independente convive ainda com dificuldades históricas, como poucos espaços adequados para apresentações, cachês reduzidos, custos elevados de equipamentos, falta de apoio permanente, precarização profissional e concentração dos principais eventos em determinadas capitais. Mesmo diante dessas limitações, novas bandas continuam surgindo e dialogando com metal, punk, hardcore, psicodelia, pop, rap, música regional e experimentações eletrônicas.

O Dia Mundial do Rock também oferece uma oportunidade para ampliar o reconhecimento da participação feminina no gênero. Durante muito tempo, a narrativa tradicional destacou majoritariamente homens, mesmo diante das contribuições fundamentais de artistas como Sister Rosetta Tharpe, Janis Joplin, Tina Turner, Patti Smith, Joan Jett, Debbie Harry e Suzi Quatro. No Brasil, Rita Lee tornou-se uma referência incontornável ao atravessar diferentes fases da música nacional, questionar padrões comportamentais e construir uma das carreiras mais influentes do país. Cássia Eller, Pitty, Paula Toller, Fernanda Takai, Syang, Érika Martins e inúmeras instrumentistas, compositoras, produtoras e integrantes de bandas independentes também ajudaram a ampliar essa presença. O mesmo processo de revisão histórica ocorre em relação a artistas negros, indígenas, LGBTQIA+ e integrantes de cenas periféricas, cujas trajetórias nem sempre receberam espaço proporcional à importância de suas obras.

Mais do que homenagear nomes consagrados, celebrar o 13 de julho significa reconhecer o trabalho de quem mantém a música em movimento. Técnicos de som, iluminadores, produtores, fotógrafos, jornalistas, radialistas, roadies, designers, donos de casas de shows, organizadores de festivais, vendedores de discos, professores, pesquisadores e fãs participam de uma cadeia cultural e econômica que não existe apenas durante os grandes eventos. O rock permanece vivo nos ensaios realizados em garagens, nos pequenos palcos, nos festivais estudantis, nas gravações caseiras, nos projetos autorais e nas publicações que documentam manifestações frequentemente ignoradas pelos grandes veículos. É nessa estrutura, formada muito mais por persistência do que por estabilidade financeira, que o gênero encontra capacidade para se renovar.

Quarenta e um anos após o Live Aid, o mundo da música tornou-se mais fragmentado e orientado por algoritmos. Dificilmente um único evento conseguiria hoje reunir parcela tão ampla da audiência mundial em torno dos mesmos artistas, das mesmas imagens e de uma causa comum. Essa transformação, porém, não elimina a mensagem central daquele 13 de julho de 1985: a arte pode mobilizar pessoas, provocar discussões e criar vínculos que ultrapassam fronteiras. O rock talvez já não ocupe sozinho o centro da cultura jovem, mas sua influência continua espalhada pela música contemporânea, pela atitude dos artistas e pela forma como diferentes gerações utilizam canções para expressar inconformismo, identidade e desejo de mudança. O Dia Mundial do Rock permanece, assim, como uma tradição essencialmente brasileira que celebra uma linguagem universal. Uma linguagem criada por encontros, conflitos e misturas, capaz de atravessar décadas sem perder completamente aquilo que sempre esteve em sua essência: a liberdade de fazer barulho.

Joás Sanct

Fotógrafo profissional, cinegrafista e editor audiovisual com 30 anos no mercado de entretenimento. Produtor cultural apaixonado por contar histórias através da imagem. Headbanger raiz, fã de Judas Priest e Slayer. Amante da leitura, da escrita e de novas culturas. Viajante por natureza, sempre em busca de inspiração pelo mundo.

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