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XIX Fórum do Forró reúne Flávio José, Luizinho Calixto, Robertinho dos 8 Baixos e Sergival em Aracaju

Evento gratuito acontece nos dias 11 e 12 de maio, no Teatro Atheneu, com debates, homenagens e apresentações voltadas à valorização do forró tradicional e da sanfona de oito baixos

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XIX Fórum do Forró reúne Flávio José, Luizinho Calixto, Robertinho dos 8 Baixos e Sergival em Aracaju
Foto: Divulgação

Aracaju recebe, nos dias 11 e 12 de maio, a 19ª edição do Fórum do Forró, evento gratuito e aberto ao público que reúne artistas, pesquisadores, músicos, produtores culturais, estudantes e admiradores do gênero em uma programação voltada à valorização das matrizes tradicionais do forró. Toda a programação será realizada no Teatro Atheneu, incluindo as atividades do segundo dia, que inicialmente haviam sido anunciadas para outro espaço. A mudança manteve os horários e os conteúdos previstos, concentrando no mesmo local a homenagem a Flávio José, os debates sobre a sanfona de oito baixos, a homenagem ao artista sergipano Sergival e as apresentações artísticas de encerramento. O acesso é gratuito, mas condicionado à inscrição prévia e à capacidade do espaço, o que torna a participação sujeita à lotação. A abertura acontece na segunda-feira, 11 de maio, às 19h, com a homenagem a Flávio José e o tema “Cancioneiro de Resistência: a obra de Flávio José como pilar do forró tradicional nordestino”. Na terça-feira, 12 de maio, a programação começa às 15h com o debate “8 Baixos: A Origem do Forró”, tendo como debatedores Luizinho Calixto, da Paraíba, e Robertinho dos 8 Baixos, de Sergipe, com mediação de Paulo Corrêa. Às 16h30, o tema será “Sergival e as Coisas do Caçuá”, com participação do próprio Sergival. Às 19h, o evento será encerrado com apresentações de Robertinho dos 8 Baixos, da Orquestra Sanfônica de 8 Baixos de Santa Cruz do Capibaribe e de Sergival.

A escolha da programação coloca no centro do debate duas frentes importantes para a compreensão do forró como linguagem musical, prática social e patrimônio cultural: de um lado, a trajetória de artistas que ajudaram a consolidar repertórios reconhecidos pelo público nordestino; de outro, a preservação de instrumentos, modos de tocar e formas de transmissão que sustentam o forró tradicional para além do calendário junino. A homenagem a Flávio José, prevista para a abertura, parte da obra do cantor, compositor e sanfoneiro para discutir sua contribuição ao cancioneiro nordestino e à permanência do forró tradicional no circuito cultural brasileiro. Natural da Paraíba, Flávio José é reconhecido como uma das principais vozes do gênero e tem sua carreira associada à continuidade de uma linhagem musical fortemente marcada por Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Durante o Fórum, ele também receberá o título de cidadania aracajuana, homenagem concedida pela Câmara Municipal de Aracaju por iniciativa do vereador Ricardo Vasconcelos. O reconhecimento ocorre dentro de um evento que busca tratar o forró não apenas como atração de época, mas como campo de memória, formação, pesquisa, mercado cultural e identidade coletiva. Ao reunir nomes consagrados e artistas ligados à tradição instrumental, a 19ª edição apresenta uma programação que procura aproximar plateia, músicos e pesquisadores em torno de temas que costumam aparecer no palco, mas nem sempre são debatidos em profundidade: repertório, origem, transmissão, continuidade, reconhecimento público e renovação de público.

O segundo dia do Fórum amplia essa discussão ao dedicar espaço específico à sanfona de oito baixos, instrumento tratado na programação como uma das bases históricas do forró. O debate “8 Baixos: A Origem do Forró” terá a presença de Luizinho Calixto e Robertinho dos 8 Baixos, dois nomes ligados diretamente à defesa e à prática desse instrumento. Luizinho Calixto, natural de Campina Grande, nasceu em 1956 em uma família de sanfoneiros e iniciou ainda na infância sua relação com o fole de oito baixos, seguindo uma tradição familiar associada a nomes como Zé Calixto e Bastinho Calixto. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, consolidou uma atuação voltada tanto ao palco quanto à formação de novos músicos, com destaque para a adaptação da sanfona de oito baixos ao canto e ao acompanhamento e para a criação de um método escrito de ensino do instrumento na afinação nordestina. Sua participação no Fórum reforça a dimensão pedagógica do encontro, porque desloca o debate do simples reconhecimento artístico para a pergunta prática sobre como preservar uma linguagem musical quando seus mestres envelhecem, quando o espaço nos meios de comunicação se reduz e quando as novas gerações passam a consumir música em formatos cada vez mais rápidos. Robertinho dos 8 Baixos, representante sergipano nessa conversa, chega ao evento como elo local dessa tradição, levando para a mesa a experiência de quem mantém o instrumento em circulação e dialoga com públicos diferentes. O encontro entre os dois nomes permite tratar a sanfona de oito baixos não como peça de museu, mas como instrumento vivo, dependente de técnica, escuta, repertório e continuidade.

A presença da Orquestra Sanfônica de 8 Baixos de Santa Cruz do Capibaribe é outro ponto de destaque da programação. Anunciada como a única orquestra sanfônica de oito baixos do país, a formação se apresenta em Aracaju no encerramento do Fórum, ao lado de Robertinho dos 8 Baixos e Sergival. A participação da orquestra tem peso simbólico e prático porque amplia a percepção sobre as possibilidades do instrumento. Em geral, a sanfona de oito baixos é associada ao toque individual, ao mestre, ao forró de raiz, à feira, ao terreiro, à festa de interior e às rodas tradicionais. Ao aparecer em formato de orquestra, o instrumento passa a ser apresentado também como experiência coletiva, arranjada e estruturada para uma escuta mais ampla, sem perder o vínculo com sua origem popular. Essa escolha de programação ajuda a mostrar que preservar tradição não significa repetir sempre a mesma forma de apresentação, mas criar condições para que a linguagem permaneça reconhecível mesmo quando ocupa novos formatos. No contexto do Fórum, a orquestra não entra apenas como atração artística, mas como demonstração de um caminho possível para a salvaguarda do forró tradicional: formar grupos, criar repertórios, organizar apresentações, estimular aprendizes e provar que a sanfona de oito baixos pode continuar presente não só na memória dos mais velhos, mas também na formação cultural de novos públicos. A vinda do grupo de Santa Cruz do Capibaribe também aproxima Pernambuco, Paraíba e Sergipe em uma mesma agenda, reforçando o caráter regional do debate e evidenciando que o forró, embora tenha expressões locais muito próprias, se estrutura como uma rede nordestina de práticas, sotaques, mestres, festas e circuitos culturais.

A homenagem a Sergival ocupa outra dimensão da programação: a valorização de um artista sergipano cuja obra se organiza em torno da pesquisa, da performance e da representação de símbolos do sertão. Cantor, compositor, instrumentista e pesquisador, Sergival iniciou sua trajetória musical em maio de 1984, quando ainda era estudante da Escola Técnica e integrou o grupo Bandauê, formado para uma festa de formatura no curso de edificações. Mais de quatro décadas depois, ele chega ao XIX Fórum do Forró como um dos homenageados da edição, com debate dedicado ao projeto “As Coisas do Caçuá”. O caçuá, objeto tradicional utilizado no transporte de produtos em feiras e na vida rural, aparece no trabalho de Sergival como elemento de cena e como síntese estética: de dentro dele saem instrumentos regionais como pandeiro, triângulo, chocalhos e apitos que reproduzem sons associados ao sertão. A proposta transforma o palco em um espaço de demonstração da cultura material e sonora nordestina, aproximando música, memória e objeto cotidiano. Ao reconhecer Sergival, o Fórum também chama atenção para uma questão recorrente nas políticas culturais: a necessidade de valorizar artistas locais que, muitas vezes, constroem carreiras longas fora dos grandes centros de visibilidade nacional, mas têm papel decisivo na manutenção de repertórios, narrativas e modos de apresentar a cultura popular. A homenagem não se limita ao tempo de carreira; ela alcança a função exercida por artistas que documentam, reinterpretam e comunicam referências do território onde vivem.

A realização do Fórum também se conecta a um contexto mais amplo de reconhecimento institucional do forró. As Matrizes Tradicionais do Forró receberam o título de Patrimônio Cultural do Brasil em 9 de dezembro de 2021, com inscrição no Livro de Registro das Formas de Expressão. Esse reconhecimento considera o forró como bem cultural de abrangência nacional e envolve um conjunto de ritmos, danças, instrumentos, práticas sociais e modos de transmissão ligados à cultura brasileira, com forte presença das raízes nordestinas. Em 2026, o debate ganhou nova camada com a entrega da candidatura do Forró Tradicional a Patrimônio Imaterial da Humanidade, movimento que reforça a necessidade de ações de salvaguarda, documentação, formação, circulação e valorização dos mestres. Nesse cenário, um fórum local assume função maior do que a simples montagem de uma programação cultural. Ele atua como espaço de articulação entre poder público, artistas, pesquisadores e sociedade, permitindo que a pauta do patrimônio seja traduzida para o cotidiano: quem toca, quem ensina, quem contrata, quem pesquisa, quem frequenta, quem registra e quem mantém o gênero em atividade. O reconhecimento como patrimônio não encerra a discussão; ao contrário, aumenta a responsabilidade sobre a continuidade das práticas. Por isso, a presença de debates sobre sanfona de oito baixos, homenagens a artistas de trajetória consolidada e apresentações de grupos especializados dialoga diretamente com a necessidade de manter o forró como expressão viva, praticada em palcos, escolas, projetos, festas, comunidades e espaços de formação.

Criado em 2001 por Paulo Corrêa, à época produtor cultural, o Fórum do Forró nasceu com a proposta de reunir pesquisadores, artistas e sociedade civil para discutir políticas públicas e estratégias de valorização do gênero. Ao chegar à 19ª edição, o evento se apresenta como uma agenda consolidada dentro do calendário cultural de Aracaju, agora com foco em temas que combinam reconhecimento nacional e identidade local. A edição de 2026 reúne, em dois dias, uma homenagem a Flávio José, debates sobre a sanfona de oito baixos com Luizinho Calixto e Robertinho, a participação da Orquestra Sanfônica de 8 Baixos de Santa Cruz do Capibaribe e a homenagem a Sergival, artista sergipano cuja obra se aproxima da pesquisa cultural e da performance popular. A programação resume diferentes camadas do forró: o cancioneiro consagrado, a técnica instrumental, a formação de novos públicos, a preservação dos mestres, a memória do sertão, a força das festas e o papel das cidades na manutenção de uma cultura que depende tanto de palco quanto de política pública. Para o público, a orientação é realizar inscrição prévia e observar a lotação do Teatro Atheneu, já que as vagas são limitadas à capacidade do espaço. Para a cidade, o Fórum representa mais uma etapa de preparação simbólica para o ciclo junino, período em que o forró ganha maior presença na agenda cultural, econômica e turística. Para os artistas e pesquisadores, a programação oferece um espaço de debate sobre continuidade, reconhecimento e transmissão. E para o próprio gênero, o encontro funciona como registro de uma questão central: o forró permanece forte quando é celebrado, mas se preserva de fato quando é estudado, ensinado, tocado, ouvido e tratado como parte estruturante da cultura brasileira.

Redação

A Redação é o espaço onde a música ganha narrativa, profundidade e contexto. Neste caderno da revista Instamag, nascem reportagens, entrevistas, análises e histórias que atravessam diferentes gêneros, cenas e movimentos culturais, com olhar especial para a produção artística do Nordeste. Aqui, a música é tratada para além do lançamento ou do palco: revelamos bastidores, trajetórias, ideias, personagens e transformações que ajudam a compreender a força, a identidade e a diversidade da cultura musical brasileira.

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