A base política do governador Fábio Mitidieri chega à eleição de 2026 tentando sustentar uma imagem de unidade que começa a desmoronar justamente onde estão dois dos maiores prêmios da disputa: as duas cadeiras de Sergipe no Senado Federal. No palanque para o Governo do Estado, o discurso é de convergência em torno da reeleição do governador. Quando a conversa muda para o Senado, porém, o cenário é completamente diferente. André Moura, Rogério Carvalho, Alessandro Vieira e Edvaldo Nogueira orbitam, em graus distintos, o mesmo campo governista e disputam apenas duas vagas. André e Rogério passaram a ocupar o espaço central da composição construída em torno de Mitidieri, mas isso não retirou Alessandro nem Edvaldo da corrida. O MDB oficializou Alessandro Vieira para tentar um novo mandato e, ao mesmo tempo, declarou apoio à reeleição de Fábio Mitidieri. O PDT também construiu sua participação eleitoral com Edvaldo Nogueira candidato ao Senado, sem abandonar o governador. O resultado é uma engenharia política difícil de explicar ao eleitor sem reconhecer a contradição: partidos e lideranças podem estar juntos para pedir votos para Fábio e, poucos minutos depois, disputar ferozmente entre si os votos para senador. Não se trata simplesmente de diversidade dentro de uma aliança. Trata-se de candidatos que precisam derrotar os próprios aliados para sobreviver eleitoralmente. Cada prefeito conquistado por um significa, potencialmente, um prefeito a menos para outro. Cada vereador mobilizado, cada liderança municipal, cada estrutura partidária e cada segundo voto negociado no interior passam a representar peças de uma disputa que acontece dentro da própria casa governista. A fotografia da convenção pode transmitir harmonia, e os discursos podem repetir palavras como união, compromisso e continuidade, mas a matemática eleitoral não negocia com a retórica: existem quatro projetos de poder buscando duas cadeiras. Em algum momento, alguém necessariamente ficará de fora, e todos os envolvidos sabem disso.

Candidato a reeleição, o Governador Fábio Mitidieri e um dos seus candidatos ao Senado, André Moura
A situação fica ainda mais delicada porque não se está falando de quatro nomes politicamente neutros entre si. Há divergências antigas, críticas públicas e projetos que já estiveram em campos opostos. O exemplo mais evidente é a aproximação entre Fábio Mitidieri e Rogério Carvalho. Há apenas quatro anos, os dois protagonizaram uma das disputas mais duras da história eleitoral recente de Sergipe. Em 2022, Mitidieri e Rogério chegaram ao segundo turno para o Governo do Estado em lados adversários, depois de uma campanha marcada por enfrentamentos políticos. Mitidieri venceu com 623.851 votos, equivalentes a 51,70% dos votos válidos, contra 582.940 votos de Rogério, que terminou com 48,30%. Agora, o adversário que tentou impedir a chegada de Mitidieri ao Palácio dos Despachos aparece dentro da engrenagem política montada para garantir sua permanência por mais quatro anos. É legítimo que adversários façam alianças; política não é uma atividade estática, e mudanças de composição fazem parte do jogo democrático. O problema começa quando a mudança ocorre sem que as contradições anteriores desapareçam e sem que o eleitor receba uma explicação política suficientemente convincente sobre o que mudou, além da conveniência eleitoral. Rogério precisa renovar seu mandato no Senado. Mitidieri precisa ampliar sua coalizão, dialogar com o eleitorado lulista e reduzir resistências à sua reeleição. O encontro dos dois resolve problemas objetivos para ambos. A questão é saber se essa convergência representa efetivamente uma mudança programática ou apenas uma operação eleitoral em que antigos adversários decidiram que, naquele momento, possuem mais a ganhar juntos do que separados. Essa dúvida ganha força porque a chapa ainda precisa acomodar André Moura, nome que já estava politicamente associado a Mitidieri muito antes da incorporação de Rogério ao desenho majoritário. O resultado é uma composição heterogênea, na qual personagens com histórias, bases eleitorais, discursos e interesses diferentes são colocados sob a mesma lona, enquanto cada um trabalha para preservar o próprio espaço.

Senador do PT, Rogério Carvalho e o Governador Fábio Mitidieri
Se André Moura e Rogério Carvalho já criariam, por si sós, um complexo exercício de convivência eleitoral, Alessandro Vieira torna a equação ainda mais difícil. O senador do MDB não abriu mão da reeleição, e seu partido confirmou apoio ao mesmo Fábio Mitidieri que possui outros nomes prioritários para as duas vagas disponíveis. Alessandro não é um candidato meramente figurativo. É senador em exercício, possui mandato, estrutura política, atuação nacional e pretende continuar em Brasília. Isso significa que não existe razão eleitoral para que entre em uma campanha disposto a servir apenas como coadjuvante de André ou de Rogério. Para ser reeleito, Alessandro precisa retirar votos dos demais concorrentes — inclusive daqueles que também apoiam Mitidieri. É aí que a suposta unidade começa a revelar sua fragilidade prática. Imagine-se a situação enfrentada por um prefeito governista do interior. Ele recebe o governador defendendo a continuidade da gestão estadual. Ao lado de Mitidieri, pode aparecer um candidato ao Senado pedindo apoio. Dias depois, outro partido da mesma base chega ao município reivindicando exatamente o mesmo espaço. Um vereador que pretende acompanhar o governador também terá de decidir quais dois candidatos ao Senado colocará em seu material, em suas reuniões, nas caminhadas e nas conversas com o eleitor. O mesmo acontecerá com deputados estaduais, candidatos a deputado federal, ex-prefeitos, lideranças comunitárias e grupos empresariais. Não há estrutura suficiente para todos ocuparem o mesmo lugar. Em algum momento, a aparente convivência dará lugar à escolha. É justamente nesse processo que as tensões tendem a crescer, porque uma eleição para o Senado com duas vagas estimula a formação de dobradinhas. Um candidato procura um parceiro com eleitorado complementar, prefeitos tentam combinar o primeiro e o segundo votos, grupos regionais fecham compromissos e campanhas identificam quem deve ser tratado como adversário prioritário. Se André fecha uma dobradinha com determinada liderança, Alessandro pode ficar de fora. Se Rogério consolida o eleitorado de uma região ao lado de outro nome, Edvaldo perde espaço. Se Alessandro atrai prefeitos governistas, retira estrutura daqueles que oficialmente ocupam a linha de frente da chapa. A disputa deixa, então, de ser uma abstração partidária e passa a atingir diretamente a distribuição de poder dentro da base.

Edvaldo Nogueira acrescenta outro elemento ao problema porque sua candidatura também preserva vínculo político com Mitidieri sem se submeter aos dois nomes que ocupam a posição central do projeto governista. Ex-prefeito de Aracaju e presidente estadual do PDT, Edvaldo passou anos administrando a maior cidade do estado e tenta converter essa exposição, sobretudo na capital e na Região Metropolitana, em capital eleitoral estadual. O PDT chegou às convenções defendendo simultaneamente duas decisões: apoiar a reeleição de Fábio Mitidieri e oficializar Edvaldo para o Senado. Politicamente, a mensagem é clara: o partido está com o governador, mas não aceita que o governador determine integralmente seus votos para senador. Edvaldo, assim como Alessandro, precisa construir um caminho próprio, percorrer municípios, conquistar prefeitos, vereadores e lideranças e convencer o eleitor governista de que pode votar em Mitidieri sem necessariamente acompanhar integralmente a dupla preferencial do núcleo da campanha. A consequência é que o governador passa a comandar uma coalizão em que diferentes braços pedem seu voto para o Governo, mas competem pela mesma estrutura logo abaixo. É uma situação confortável apenas enquanto ninguém precisa fazer escolhas explícitas. Quando começar a distribuição efetiva de material, agenda, presença em palanques e declarações de apoio, a diplomacia ficará mais difícil. Quem Mitidieri levará para determinado ato? Quem estará ao seu lado nas grandes agendas regionais? Quando estiver diante de um prefeito que apoia Alessandro e Edvaldo, o governador pedirá votos para André e Rogério? Quando participar de um ato do MDB, fará defesa aberta dos demais candidatos? E, quando estiver em uma atividade do PDT, como compatibilizará o projeto de Edvaldo com o compromisso assumido com os nomes centrais da chapa? São perguntas que não podem ser resolvidas indefinidamente pela expressão genérica de que “todos fazem parte do grupo”. Nas eleições proporcionais, aliados conseguem, muitas vezes, coexistir porque disputam várias cadeiras. Para o Senado, a lógica é brutalmente diferente. São apenas duas vagas. Portanto, a vitória de dois significa, necessariamente, a derrota de todos os outros.
O maior risco para Mitidieri é que essa guerra deixe de ficar confinada à eleição para o Senado e comece a contaminar sua própria campanha. A história eleitoral sergipana já mostrou que o excesso de candidaturas dentro de um mesmo campo pode produzir fragmentação, ressentimentos e votos cruzados. O problema não está apenas na quantidade de postulantes, mas no incentivo criado para que grupos teoricamente aliados passem a torcer pelo enfraquecimento uns dos outros. Um aliado de André Moura não possui interesse eleitoral em ver Alessandro Vieira crescer além de determinado ponto. Um grupo comprometido com Rogério Carvalho dificilmente trabalhará com a mesma intensidade por um concorrente que possa tomar sua cadeira. Edvaldo precisa convencer eleitores de que existe espaço para uma candidatura independente da dupla considerada prioritária. Alessandro necessita mostrar que apoiar o governador não significa aceitar uma posição secundária dentro do agrupamento. Essa competição pode produzir aquilo que toda campanha majoritária tenta evitar: fogo amigo. Não é necessário que os próprios candidatos façam ataques frontais. Basta que aliados, apoiadores, influenciadores, dirigentes municipais e operadores políticos comecem a recuperar declarações antigas, questionar coerências, comparar históricos e espalhar dúvidas sobre os concorrentes internos. A política sergipana já registrou sinais claros dessas incompatibilidades ao longo da construção das pré-candidaturas. André Moura e Alessandro Vieira, por exemplo, não construíram suas trajetórias recentes em um ambiente de plena confiança recíproca. Rogério Carvalho chega à aliança depois de ter sido o principal adversário de Mitidieri em 2022. Edvaldo tenta preservar independência mesmo permanecendo próximo do governador. Não é preciso inventar um racha: a própria configuração eleitoral produz o conflito. A pergunta relevante é até quando a liderança de Fábio Mitidieri será suficiente para manter esses interesses divergentes dentro de limites controláveis. Governar uma coalizão ampla é uma coisa; convencer quatro candidatos ao Senado de que três deles devem aceitar perder espaço para preservar a fotografia de unidade é outra completamente diferente.
No fim, a base governista entra na campanha vendendo unidade para o cargo de governador e concorrência interna para o Senado. É essa contradição que o eleitor sergipano terá diante dos olhos. André Moura quer uma das vagas. Rogério Carvalho quer renovar o mandato. Alessandro Vieira também busca permanecer no Senado. Edvaldo Nogueira decidiu transformar sua longa trajetória administrativa em uma candidatura estadual. Nenhum deles entrou na disputa para fazer figuração, e nenhum possui interesse racional em sacrificar a própria candidatura para facilitar a vida dos demais. O governador tenta ficar no centro de todos, beneficiando-se de uma aliança numerosa e evitando que candidaturas dissidentes migrem para a oposição. É uma estratégia compreensível do ponto de vista eleitoral: quanto mais partidos e lideranças permanecerem em sua órbita, menor o espaço disponível para seus adversários na disputa pelo Governo do Estado. Mas essa estratégia cobra um preço. Ao manter dentro do mesmo campo mais candidaturas ao Senado do que vagas disponíveis, Mitidieri transfere a guerra para dentro de sua própria base. A campanha mostrará se ele conseguirá administrar essa disputa ou se a aparência de unidade terminará assim que os candidatos começarem a perceber que o voto conquistado por um pode significar a derrota do outro. O fato concreto é que a eleição ainda nem entrou em sua fase mais agressiva, e a base governista já carrega uma contradição impossível de esconder: para governador, todos podem declarar que estão juntos; para o Senado, não há espaço para todos. Quando as pesquisas começarem a indicar quem está avançando e quem corre risco de ficar pelo caminho, quando prefeitos forem pressionados a anunciar suas dobradinhas e quando os candidatos passarem a disputar cada voto no interior, a cordialidade será submetida ao teste definitivo. Nesse momento, será possível saber se Mitidieri construiu uma grande frente política ou apenas reuniu, temporariamente, projetos concorrentes sob o mesmo teto. Porque, no Senado, a conta não fecha por acordo, fotografia ou discurso: quatro candidatos podem dividir o palanque, mas somente dois poderão comemorar quando as urnas forem abertas.
