A eleição para o Governo de Sergipe em 2026 não será apenas uma disputa de nomes. Será um confronto entre histórias, estilos políticos e diferentes formas de enxergar o futuro do Estado. As convenções partidárias consolidaram seis candidaturas que representam momentos distintos da política sergipana: de um lado, um governador que busca transformar seu mandato em legado; de outro, lideranças construídas no interior, na comunicação, nos movimentos sociais e no empreendedorismo que tentam romper ou disputar espaço dentro de uma estrutura política tradicionalmente dominada por grupos organizados. Mais do que apresentar propostas, cada candidato chega às urnas carregando uma trajetória que explica suas forças, suas fragilidades e a maneira como pretende convencer o eleitor de que está preparado para ocupar o Palácio dos Despachos.

Governador Fábio Mitidieri
Fábio Mitidieri: o governador que tenta transformar gestão em argumento eleitoral
Fábio Cruz Mitidieri representa a continuidade de um projeto político que chegou ao comando do Estado em 2022 após uma longa construção de alianças. Antes de ocupar o principal cargo executivo de Sergipe, sua trajetória passou por diferentes espaços da administração pública e do Legislativo. Filho de uma família com presença na política sergipana, construiu sua carreira inicialmente ligado ao setor empresarial, mas encontrou na política institucional o caminho para ampliar sua atuação pública. Sua experiência começou em Aracaju, onde exerceu mandato de vereador, antes de assumir funções administrativas e posteriormente chegar à Câmara dos Deputados.
Na Câmara Federal, Fábio Mitidieri consolidou uma imagem de parlamentar ligado a pautas de desenvolvimento econômico, esporte, geração de emprego e investimentos para Sergipe. Foram dois mandatos como deputado federal, período em que construiu relações políticas em Brasília e fortaleceu sua articulação dentro do grupo liderado pelo então governador Belivaldo Chagas e pelo senador e ex-governador Jackson Barreto. Em 2022, venceu a eleição estadual em segundo turno, derrotando o senador Rogério Carvalho e assumindo o Governo do Estado como representante de uma aliança ampla.
Chegar à disputa pela reeleição coloca Fábio em uma posição diferente da maioria dos adversários. Ele não disputa apenas com promessas, mas com a obrigação de apresentar resultados. Governadores que buscam permanecer no cargo enfrentam sempre o mesmo julgamento: a população compara aquilo que foi prometido com aquilo que foi entregue. Sua campanha deverá ser baseada na defesa de obras, investimentos e programas realizados durante sua gestão, tentando convencer que Sergipe precisa de continuidade para consolidar avanços.
Ao mesmo tempo, o peso da máquina administrativa também traz cobranças. O eleitor que apostou em mudança em 2022 agora avalia se o governo correspondeu às expectativas. O desafio de Fábio Mitidieri será evitar que sua candidatura seja vista apenas como manutenção de um grupo político e apresentar uma narrativa de evolução, mostrando que o segundo mandato representaria uma nova etapa e não apenas a repetição do primeiro ciclo.

Valmir de Francisquinho
Valmir de Francisquinho: a força popular que nasceu nas ruas de Itabaiana
Poucos políticos em Sergipe conseguiram construir uma identificação tão forte com uma cidade quanto Valmir dos Santos Costa, conhecido popularmente como Valmir de Francisquinho. Sua trajetória política está diretamente ligada a Itabaiana, município que se tornou a base de sua força eleitoral e onde construiu uma relação marcada pela presença constante junto à população. Diferentemente de lideranças que cresceram principalmente dentro de estruturas partidárias estaduais, Valmir consolidou sua imagem a partir da política municipal, do contato direto e de um estilo considerado por seus apoiadores como próximo e acessível.
Antes de chegar ao comando da prefeitura, percorreu uma longa caminhada na vida pública. Exerceu mandatos como vereador e construiu uma trajetória marcada pela participação ativa na política local. Sua experiência em Itabaiana foi fundamental para transformar seu nome em uma das principais forças eleitorais do interior sergipano. Como prefeito, ganhou projeção estadual ao defender um modelo de gestão associado a obras, presença administrativa e comunicação direta com os moradores.
Sua popularidade ultrapassou os limites do município e fez dele um dos principais nomes da oposição em Sergipe. A eleição de 2022 foi o ponto mais emblemático dessa trajetória: mesmo enfrentando uma disputa jurídica que impediu sua candidatura de seguir adiante, Valmir demonstrou uma força eleitoral expressiva, ficando marcado como um fenômeno político capaz de mobilizar uma parcela significativa do eleitorado.
O retorno à disputa em 2026 representa uma tentativa de transformar essa popularidade em vitória definitiva. Seu principal patrimônio continua sendo a conexão com o eleitor comum, especialmente no interior. Porém, o desafio é ampliar essa força para regiões onde sua presença política ainda precisa crescer e apresentar uma imagem de candidato preparado para administrar todo o Estado, não apenas representar uma liderança regional.
Valmir chega novamente como o nome que simboliza uma oposição de forte apelo popular. Sua candidatura carrega o discurso de alguém que conhece a realidade dos municípios e que promete levar para o governo estadual o modelo de gestão construído em Itabaiana. A grande questão será saber se sua força pessoal conseguirá superar a disputa tradicional entre grupos políticos e conquistar uma maioria estadual.

Ricardo Marques
Ricardo Marques: da televisão para a política, o comunicador que tenta transformar popularidade em liderança estadual
Ricardo Marques representa uma das trajetórias mais recentes e simbólicas da tentativa de renovação política em Sergipe. Antes de ocupar cargos eletivos, construiu sua imagem durante décadas diante das câmeras, como jornalista e comunicador, tornando-se conhecido pela atuação em programas de televisão e rádio. Sua relação com o público nasceu fora dos palanques tradicionais: foi construída diariamente através da comunicação, da cobertura dos problemas da população e da exposição de demandas sociais que chegavam por meio dos telespectadores.
Esse histórico ajudou a criar uma imagem pública associada à proximidade com o cidadão comum. Diferentemente de políticos que iniciam suas carreiras dentro de partidos, sindicatos ou grupos familiares tradicionais, Ricardo chegou à política carregando uma marca já consolidada junto ao eleitor. Em 2020, decidiu transformar a experiência acumulada na comunicação em uma candidatura eleitoral e foi eleito vereador de Aracaju, iniciando uma nova fase de sua trajetória.
Na Câmara Municipal da capital sergipana, procurou manter o perfil que construiu no jornalismo: fiscalização, cobrança e presença nas ruas. Suas pautas estiveram relacionadas principalmente a serviços públicos, saúde, infraestrutura e demandas apresentadas diretamente pela população. A atuação parlamentar ampliou seu espaço político e fortaleceu o discurso de que era possível levar para dentro da política uma representação mais próxima da realidade das pessoas.
Posteriormente, sua trajetória ganhou um novo capítulo com a eleição para a vice-prefeitura de Aracaju, ampliando sua responsabilidade administrativa e colocando seu nome em uma dimensão estadual. A disputa pelo Governo de Sergipe surge, portanto, como um salto político: sair da representação municipal para tentar liderar todo o Estado.
O desafio de Ricardo Marques está justamente na transição entre dois mundos. A comunicação lhe deu reconhecimento, mas administrar um Estado exige uma estrutura política, técnica e administrativa muito maior. Sua campanha deverá mostrar que a experiência de ouvir pessoas diante de um microfone pode se transformar em capacidade de gestão. Ele tenta ocupar o espaço daqueles que desejam uma política menos tradicional, mas precisará provar que renovação também significa preparo.

Emanuel Cacho
Emanuel Cacho: a aposta na experiência jurídica e no perfil técnico em uma eleição marcada pela disputa popular
Emanuel Cacho chega à disputa pelo Governo de Sergipe apresentando um perfil diferente dos demais concorrentes. Sua trajetória está ligada principalmente ao Direito, à administração pública e à atuação institucional. Advogado, construiu carreira dentro da área jurídica antes de assumir funções públicas que lhe deram experiência direta na gestão estadual.
Seu nome ganhou maior projeção quando passou a ocupar espaços estratégicos na administração pública, especialmente durante sua passagem pela Secretaria de Estado da Justiça, área considerada uma das mais complexas do governo por envolver segurança pública, sistema prisional, direitos humanos e políticas de ressocialização.
A experiência no Executivo estadual é o principal argumento de sua candidatura. Em uma eleição onde muitos nomes apostam na identificação popular e na renovação, Emanuel tenta apresentar a imagem de alguém que conhece o funcionamento da máquina pública por dentro. Seu discurso está baseado na capacidade técnica, no planejamento e na defesa de uma gestão com maior presença institucional.
Entretanto, o cenário eleitoral de Sergipe tradicionalmente valoriza muito a conexão emocional entre candidato e eleitor. A política estadual sempre teve fortes lideranças construídas pela presença nas ruas, pelo contato direto e pela capacidade de mobilização popular. Nesse ambiente, Emanuel terá como principal desafio transformar sua experiência administrativa em uma narrativa capaz de chegar ao eleitor comum.
Sua candidatura representa uma tentativa de ocupar um espaço intermediário: nem a continuidade do grupo que está no poder, nem a oposição baseada exclusivamente na popularidade. Ele busca convencer o eleitor de que conhecimento técnico e experiência de governo podem ser diferenciais em uma disputa onde a emoção costuma pesar tanto quanto a razão.

Helton Monteiro
Helton Monteiro: a voz da saúde pública e da esquerda alternativa na disputa pelo Palácio dos Despachos
Helton Monteiro chega à eleição representando um campo político historicamente marcado pela defesa dos serviços públicos e pela crítica aos modelos tradicionais de administração. Médico, sindicalista e ligado às discussões sobre saúde pública, construiu sua trajetória principalmente através da atuação profissional e da representação dos trabalhadores da área.
Sua participação no movimento sindical colocou seu nome em debates importantes sobre valorização dos profissionais de saúde, condições de trabalho e fortalecimento do Sistema Único de Saúde. Diferentemente dos candidatos que construíram suas carreiras em mandatos políticos, Helton chega com uma trajetória associada à militância e à defesa de pautas sociais.
A candidatura pelo PSOL reforça esse posicionamento. O partido historicamente apresenta uma linha de oposição aos grupos políticos tradicionais e busca dialogar com eleitores que defendem mudanças estruturais na forma de governar. Helton tenta ocupar esse espaço, apresentando-se como uma alternativa aos blocos políticos que há anos disputam o comando do Estado.
Seu maior desafio eleitoral está relacionado ao tamanho da estrutura partidária e à necessidade de ampliar seu alcance para além dos setores já identificados com a esquerda. Uma candidatura majoritária exige diálogo com diferentes segmentos sociais, incluindo aqueles que não acompanham diretamente a militância política.
Sua presença na disputa, porém, acrescenta uma característica importante ao cenário: coloca em debate temas como saúde pública, desigualdade social, valorização dos servidores e participação popular. Mesmo partindo de uma estrutura menor, representa um segmento do eleitorado que busca uma mudança mais profunda no modelo político sergipano.

Taty Cristina
Taty Cristina: da máquina de costura ao projeto de governo, a candidatura que nasce fora dos corredores tradicionais da política
Entre os seis nomes colocados na disputa, Taty Cristina apresenta a trajetória mais distante da política tradicional. Sua história não foi construída em mandatos eletivos, gabinetes ou estruturas partidárias. Ela nasce no empreendedorismo, na comunicação e no trabalho social desenvolvido ao longo de décadas junto a mulheres, crianças e famílias em situação de vulnerabilidade.
Jornalista, radialista, empreendedora e ativista social sergipana, Taty construiu sua vida profissional à frente da Tauro Confecções, empresa criada há 27 anos no segmento de confecção e fantasias. Essa experiência empresarial colocou em sua trajetória um contato direto com desafios enfrentados por pequenos empresários: geração de emprego, dificuldades de mercado, capacitação profissional e necessidade de oportunidades para quem deseja empreender.
Sua atuação ganhou uma dimensão social especialmente voltada ao empreendedorismo feminino. Projetos como o Rainhas de Sucesso e a mentoria De Costureira à Empresária foram criados com o objetivo de transformar histórias de mulheres que muitas vezes permanecem invisíveis economicamente, oferecendo capacitação, incentivo e fortalecimento profissional.
Além do empreendedorismo, Taty construiu uma atuação social através do Projeto Dia da Criança Feliz, iniciativa voltada para crianças e famílias em situação de vulnerabilidade. Sua trajetória reúne ações relacionadas à inclusão, cultura, esporte, dança, fé e desenvolvimento humano, formando uma imagem pública ligada ao cuidado social.
Ao anunciar sua candidatura pelo Democracia Cristã, Taty apresenta como principal bandeira uma política baseada em três conceitos: incluir, servir e transformar. Sua proposta parte da ideia de que a experiência de quem viveu os desafios do setor produtivo e das comunidades pode contribuir para uma nova forma de administrar o Estado.
O grande desafio de sua candidatura é transformar reconhecimento social em força eleitoral. Em uma disputa dominada por nomes com décadas de atuação política, ela tenta apresentar justamente o diferencial de não pertencer ao grupo tradicional. Sua campanha será uma tentativa de convencer o eleitor de que a experiência de empreender, comunicar e atuar socialmente também pode ser uma preparação para governar.
Seis histórias, seis caminhos e uma decisão que caberá ao eleitor sergipano
A eleição para o Governo de Sergipe em 2026 coloca diante do eleitor seis trajetórias que representam diferentes formas de chegar ao poder. Fábio Mitidieri tenta transformar a gestão em argumento para permanecer no comando do Estado. Valmir de Francisquinho aposta na força popular construída no interior. Ricardo Marques tenta converter sua história na comunicação em liderança política. Emanuel Cacho apresenta experiência administrativa e perfil técnico. Helton Monteiro representa uma visão ligada aos movimentos sociais e à defesa dos serviços públicos. Taty Cristina surge como a representante de uma candidatura construída fora da política tradicional.
Mais do que uma disputa entre partidos, a eleição será um confronto entre biografias. Cada candidato carrega uma narrativa própria sobre preparo, experiência e capacidade de transformação. Ao eleitor caberá avaliar não apenas quem promete mais, mas qual história demonstra maior capacidade de conduzir Sergipe diante dos desafios que ainda permanecem: desenvolvimento econômico, saúde, segurança, educação, inclusão social e geração de oportunidades. Ao final, a escolha será entre diferentes formas de enxergar o futuro do Estado. A urna decidirá qual dessas trajetórias conseguirá transformar história pessoal em projeto coletivo.
