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Atas fechadas, alianças rachadas: Sergipe entra na eleição com cinco chapas ao governo e guerra aberta pelo Senado

Convenções encerradas em 5 de agosto consolidaram nomes e coligações, mas não produziram candidaturas definitivas; Mitidieri reúne a maior estrutura partidária, Valmir sustenta a principal oposição e a disputa por duas vagas no Senado expõe acordos contraditórios, palanques compartilhados e uma base governista longe de ser eleitoralmente uniforme

Atas fechadas, alianças rachadas: Sergipe entra na eleição com cinco chapas ao governo e guerra aberta pelo Senado
Foto: Instagram/Reprodução

As convenções partidárias terminaram em Sergipe deixando um quadro eleitoral mais organizado no papel, porém muito menos estável do que os discursos festivos dos palanques tentaram transmitir. Até a noite de quarta-feira, 5 de agosto, partidos e federações escolheram os nomes que pretendem apresentar ao eleitorado para o Governo do Estado, o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa. Foram homologadas cinco chapas para governador e vice-governador, enquanto pelo menos nove nomes passaram a ocupar formalmente ou politicamente a disputa pelas duas cadeiras sergipanas no Senado. O encerramento das convenções, contudo, não significa que todas essas candidaturas estejam definitivamente confirmadas. A etapa concluída foi partidária. A etapa jurídica apenas começou. Os partidos têm até 15 de agosto para protocolar os pedidos de registro, a propaganda eleitoral geral começa no dia 16, o horário gratuito no rádio e na televisão vai de 28 de agosto a 1º de outubro e o primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro. Entre a ata da convenção e a presença definitiva do nome na urna ainda existem análise de documentos, pedidos de impugnação, questionamentos sobre elegibilidade, possíveis renúncias, substituições e decisões judiciais.

É necessário fazer essa distinção porque a expressão “candidatura oficializada”, repetida por partidos e veículos de comunicação, pode criar uma conclusão juridicamente prematura. A convenção escolhe o nome e autoriza o partido a requerer o registro. A ata documenta a decisão tomada pelos convencionais, informa a composição das coligações, relaciona os cargos disputados e identifica os candidatos escolhidos. O documento é inserido no CANDex, transmitido à Justiça Eleitoral e integrado ao processo de registro. Isso torna a ata uma peça formal de grande peso, mas não um salvo-conduto. O candidato só terá sua situação consolidada depois que o pedido for apresentado e examinado. Além disso, órgãos nacionais dos partidos podem anular deliberações estaduais que contrariem diretrizes legitimamente estabelecidas, desde que observem o procedimento previsto na legislação. Portanto, o que ficou sacramentado nas atas foi a vontade partidária manifestada nas convenções, e não o deferimento definitivo de cada candidatura.

Cinco chapas ao governo, mas um número maior de projetos majoritários

O mapa objetivo das convenções aponta cinco duplas para o Governo de Sergipe. Fábio Mitidieri e Jeferson Andrade foram escolhidos pelo PSD e pelo amplo agrupamento governista; Valmir de Francisquinho e Priscila Felizola representam a aliança formada por Republicanos e Avante; Ricardo Marques e a pastora Salete Fernandes encabeçam o projeto do PL; o médico Helton Monteiro e Maria Izaltina foram apresentados pela Federação PSOL-Rede; e Emanuel Cacho e Suely Barreto formam a chapa da Federação PSDB-Cidadania. Esse é o número tecnicamente correto de candidaturas ao Executivo homologadas nas convenções. Algumas contagens superiores divulgadas durante o período convencional misturaram chapas completas para governador com projetos independentes destinados apenas ao Senado, especialmente os do MDB e do PDT. Existem cinco chapas para governador, mas há mais de cinco núcleos majoritários quando se consideram as candidaturas senatoriais que apoiam um candidato ao governo sem integrar a dupla oficialmente indicada por ele.

Essa separação é fundamental para compreender o caráter peculiar da eleição sergipana. MDB e PDT declararam apoio à reeleição de Fábio Mitidieri, mas homologaram candidatos próprios ao Senado: Alessandro Vieira, pelo MDB, e Edvaldo Nogueira, pelo PDT. Ao mesmo tempo, a composição formal apresentada pelo núcleo central do governo reserva as duas vagas senatoriais a Rogério Carvalho, do PT, e André Moura, do União Brasil. O resultado é uma base governista com um candidato único ao governo, mas pelo menos quatro postulantes ao Senado circulando em diferentes áreas do mesmo agrupamento. Como o eleitor sergipano dará dois votos para senador, a estratégia permite combinações variadas, porém transforma a campanha governista em uma arena de disputa interna. A fotografia das convenções mostra unidade para o Executivo e competição aberta para o Senado.

Mitidieri reúne a maior estrutura, mas terá de administrar aliados concorrentes

A chapa governista foi a última a ser homologada, justamente no último dia permitido pela legislação. O PSD confirmou o governador Fábio Mitidieri como candidato à reeleição e escolheu o presidente da Assembleia Legislativa, deputado estadual Jeferson Andrade, também do PSD, para a vice. Para as duas vagas do Senado, a composição central apresentou o senador Rogério Carvalho, do PT, que busca a reeleição, e o ex-deputado federal André Moura, do União Brasil. A aliança reúne PSD, PT, União Brasil, PP, PSB, PCdoB, PV, PRD, Solidariedade e outros segmentos partidários organizados por meio de federações. Em tamanho, presença municipal, número de prefeitos, mandatos, tempo de propaganda e estrutura, trata-se do maior agrupamento da eleição sergipana.

O tamanho da frente, entretanto, é simultaneamente sua força e seu problema. O governo juntou personagens que estiveram em campos adversários na eleição de 2022 e que continuam disputando espaços entre si. Mitidieri e Rogério Carvalho foram adversários no segundo turno daquele ano. O PT enfrentou o grupo que hoje controla o governo, mas decidiu integrar a composição de 2026. André Moura e Rogério também chegam de tradições e interesses diferentes. Fora da dupla oficial do Senado, Alessandro Vieira e Edvaldo Nogueira preservam suas candidaturas e reivindicam votos entre prefeitos, vereadores e lideranças que apoiam Mitidieri. A coligação governista não eliminou essas rivalidades; apenas colocou todas sob o mesmo teto.

O governador entra na campanha com as vantagens naturais de quem ocupa o cargo: exposição institucional, capacidade de articulação, apoio de uma extensa rede de gestores municipais e possibilidade de apresentar entregas do mandato. Em contrapartida, será obrigado a responder diretamente pelos problemas acumulados durante sua administração. O eleitorado não avaliará apenas promessas para mais quatro anos, mas o desempenho do governo em áreas como abastecimento de água, saúde, segurança, infraestrutura, emprego, relação com servidores, concessões de serviços públicos e execução de compromissos assumidos em 2022. A campanha governista tentará transformar estrutura administrativa e apoio político em percepção de continuidade segura. A oposição trabalhará para apresentar essa mesma estrutura como concentração de poder, acordo de conveniência e tentativa de reunir adversários inconciliáveis para preservar o comando do Estado.

A escolha de Jeferson Andrade para a vice também produz consequências na eleição proporcional. Presidente da Assembleia e um dos nomes de maior peso do PSD na disputa estadual, ele deixa de concorrer diretamente a uma das 24 cadeiras da Alese para integrar a chapa executiva. Sua saída reorganiza o espaço interno do partido, fortalece outros candidatos da legenda e abre uma disputa pelo eleitorado que antes estaria concentrado em seu projeto de reeleição parlamentar. Jeferson oferece à chapa governista articulação legislativa e presença no interior, mas também vincula a campanha ao atual funcionamento da Assembleia e à relação de proximidade entre o Legislativo estadual e o Palácio dos Despachos.

Valmir volta ao centro do confronto como principal ameaça ao governo

A principal chapa de oposição é formada por Valmir de Francisquinho, do Republicanos, e Priscila Felizola, com o apoio do Avante. As convenções do grupo também consolidaram Delegado André David e Eduardo Amorim como candidatos ao Senado. O agrupamento tem como liderança política de grande visibilidade a prefeita de Aracaju, Emília Corrêa, presidente estadual do Republicanos, o que oferece à chapa uma base relevante na capital e complementa a força eleitoral de Valmir em Itabaiana e em municípios do interior.

Valmir chega a 2026 carregando dois elementos difíceis de separar. O primeiro é sua capacidade eleitoral demonstrada em disputas anteriores, especialmente no interior. O segundo é a memória do conturbado capítulo jurídico que marcou sua participação no processo eleitoral de 2022. Não cabe antecipar qualquer impedimento atual, porque o registro de 2026 ainda será analisado e deve ser tratado com base nos documentos deste pleito. Entretanto, seria igualmente superficial fingir que o passado não terá peso político. Adversários tendem a explorar o tema, enquanto seus aliados tentarão apresentar Valmir como vítima de um processo que teria retirado do eleitor a possibilidade de escolhê-lo. A Justiça Eleitoral, e não os palanques, definirá a situação jurídica de cada pedido de registro.

A escolha de Priscila Felizola busca ampliar o perfil da chapa para além do núcleo político tradicional de Valmir. Ela acrescenta presença feminina, atuação administrativa e vínculos com setores empresariais e institucionais. Já a composição para o Senado reúne dois nomes ligados à segurança pública e à saúde. André David busca capitalizar a identificação como delegado e o discurso de enfrentamento à criminalidade. Eduardo Amorim retorna a uma disputa para o Senado sustentado por sua experiência anterior na Casa e por uma base eleitoral historicamente relacionada à área médica.

O desafio de Valmir será transformar rejeição ao governo em uma maioria estadual organizada. Ter desempenho expressivo em Itabaiana e em áreas do agreste não basta para vencer a eleição. Será necessário crescer em Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão, Lagarto, Estância e nos demais centros que concentram parcelas relevantes do eleitorado. A presença de Emília Corrêa pode facilitar a entrada na capital, mas também submete a aliança ao julgamento precoce da administração municipal. A chapa dependerá ainda de uma campanha juridicamente segura, de coordenação entre seus candidatos ao Senado e de capacidade para impedir que o PL capture sozinho o eleitor conservador.

PL lança chapa própria e divide o campo de direita

O PL escolheu Ricardo Marques para o governo e a pastora Salete Fernandes para a vice. Para o Senado, o partido trabalha com o deputado federal Rodrigo Valadares e Coronel Rocha. A composição se apresenta como o palanque sergipano do campo bolsonarista e da candidatura presidencial apoiada nacionalmente pela legenda. O partido também projetou candidaturas proporcionais como as de Cecília Marques e do delegado Augusto César para a Câmara dos Deputados.

Ricardo Marques tenta construir uma terceira via competitiva dentro de uma eleição inicialmente polarizada entre Mitidieri e Valmir. Sua experiência como comunicador e parlamentar oferece conhecimento público, especialmente em Aracaju, mas as pesquisas disponíveis até o início de agosto o colocam distante dos dois primeiros. A função imediata da candidatura será consolidar o PL como força estadual, assegurar um palanque próprio para a disputa nacional, proteger suas chapas proporcionais e evitar que Republicanos e Valmir monopolizem o eleitorado identificado com a direita.

Essa divisão favorece Mitidieri no primeiro turno, porque dois grupos oposicionistas passam a disputar faixas semelhantes do eleitorado. Ao mesmo tempo, pode dar ao PL poder de negociação em um eventual segundo turno. Ricardo, Rodrigo Valadares e as demais lideranças do partido precisarão escolher entre manter a candidatura como projeto de longo prazo ou transformá-la, desde cedo, em instrumento de pressão sobre os dois principais concorrentes. Para ser mais do que um palanque nacional reproduzido em Sergipe, o PL terá de apresentar propostas estaduais concretas e explicar por que seu eleitor deveria rejeitar não apenas o atual governo, mas também a oposição liderada por Valmir.

Rodrigo Valadares entra na eleição para o Senado como um dos nomes mais associados ao bolsonarismo no estado. Seu desempenho dependerá da transferência de votos do candidato presidencial do partido, da capacidade de expandir sua presença além da militância digital e da eficiência da chapa proporcional do PL. Coronel Rocha disputa o segundo voto do eleitor conservador, mas enfrenta concorrência direta de André David e Eduardo Amorim no agrupamento de Valmir, além de André Moura na base governista. A direita sergipana, portanto, não chega unificada. Chega fragmentada em candidaturas que disputarão entre si praticamente o mesmo espaço político.

PSOL-Rede escolhe autonomia e tenta preservar uma identidade de esquerda

A Federação PSOL-Rede homologou o médico Helton Monteiro para governador e Maria Izaltina para vice. Iran Barbosa foi escolhido para o Senado, enquanto a deputada estadual Linda Brasil busca a reeleição. Maria Izaltina, ligada a comunidade quilombola de Brejo Grande, acrescenta à chapa uma representação territorial e social que não aparece nas demais composições. Helton tem atuação sindical e profissional relacionada à saúde pública, e Iran Barbosa retorna a uma disputa majoritária com trajetória no movimento sindical, no Legislativo municipal, na Assembleia e na Câmara Federal.

O PSOL optou por não integrar a aliança de Mitidieri, mesmo com o PT e outros partidos de esquerda dentro da frente governista. Essa decisão permite ao partido criticar simultaneamente o governo estadual e as candidaturas de direita, preservando uma posição programática própria. A dificuldade é estrutural. Com menos recursos, menor tempo de propaganda e rede municipal reduzida, a federação terá de usar os debates, a militância e pautas específicas para conquistar visibilidade.

A candidatura também expõe a divisão da esquerda sergipana. O PT decidiu apoiar a reeleição de um governador do PSD e dividir a chapa com forças de centro e de direita, incluindo União Brasil e PP. O PSOL-Rede sustenta que essa composição dilui diferenças ideológicas e impede uma oposição efetiva ao governo. Na prática, o eleitor de esquerda terá duas alternativas muito distintas: votar em Rogério Carvalho e apoiar a continuidade de Mitidieri ou escolher uma chapa de esquerda independente, com menor estrutura e reduzidas perspectivas iniciais de vitória. A campanha mostrará quanto desse eleitorado aceita o pragmatismo petista e quanto prefere uma candidatura ideologicamente mais definida.

PSDB-Cidadania reaparece com Emanuel Cacho e Suely Barreto

A Federação PSDB-Cidadania confirmou Emanuel Cacho para governador e a professora e comunicadora Suely Barreto para vice. A chapa foi lançada de maneira independente, contrariando expectativas de que a federação pudesse aderir a um dos dois principais agrupamentos. Até o encerramento das convenções, não havia sido apresentado um nome próprio da federação para o Senado.

A candidatura cumpre inicialmente uma função de sobrevivência política e reconstrução partidária. O PSDB, que já ocupou posição central na política nacional e teve influência relevante em Sergipe, perdeu espaço, mandatos e protagonismo. Lançar candidato ao governo permite ao partido participar dos debates, organizar diretórios, dar visibilidade às chapas proporcionais e tentar reconstruir uma identidade que foi comprimida pela polarização nacional.

Emanuel Cacho terá de enfrentar um problema elementar: ser conhecido por uma parcela suficiente do eleitorado para que suas propostas sejam ouvidas. Seu baixo percentual nas primeiras pesquisas não representa uma sentença definitiva, mas revela a distância entre possuir uma candidatura formal e possuir uma candidatura competitiva. Sem um nome para o Senado e sem uma rede comparável à do governo ou à dos principais blocos oposicionistas, a federação precisará transformar exposição eleitoral em crescimento real. Caso contrário, a chapa poderá terminar a eleição mais útil para a manutenção partidária do que para a disputa efetiva do governo.

A guerra do Senado é mais fragmentada do que a disputa pelo governo

Sergipe escolherá dois senadores em 2026. Cada eleitor poderá votar em dois candidatos diferentes, e os dois mais votados serão eleitos, sem segundo turno. Repetir o mesmo número não significa dar dois votos ao mesmo candidato: o segundo voto repetido é anulado. Essa regra altera completamente as estratégias. Os candidatos não precisam apenas convencer o eleitor a escolhê-los; precisam tentar se tornar uma das duas opções na combinação pessoal de cada votante.

Até o fim das convenções, o quadro reuniu Rogério Carvalho, André Moura, Alessandro Vieira, Edvaldo Nogueira, André David, Eduardo Amorim, Rodrigo Valadares, Coronel Rocha e Iran Barbosa. São nove projetos disputando duas vagas. O número pode sofrer alterações durante a fase de registro, mas já demonstra uma concorrência muito mais pulverizada do que a corrida pelo Executivo.

A base de Mitidieri concentra o maior paradoxo. A chapa central pede votos para Rogério Carvalho e André Moura. O MDB apoia Mitidieri, porém quer reeleger Alessandro Vieira. O PDT também apoia Mitidieri, mas trabalha para eleger Edvaldo Nogueira. Setores do PP, integrante da federação com o União Brasil, já manifestaram preferências por candidatos que não coincidem integralmente com a dupla formal do governo. Prefeitos e lideranças locais poderão fazer combinações próprias: Rogério e Alessandro, André Moura e Edvaldo, Alessandro e Edvaldo ou qualquer outra dupla conveniente aos interesses municipais. A ata define o acordo partidário; não controla automaticamente o segundo voto de cada aliado.

Rogério Carvalho busca renovar o mandato iniciado em 2019. Sua entrada na chapa oficial de Mitidieri representa uma reconciliação pragmática depois da disputa de 2022. Ele terá a estrutura do PT, a vinculação com o governo federal e a possibilidade de associar sua candidatura ao presidente da República. Em contrapartida, precisará explicar por que passou de adversário do atual governador a parceiro de reeleição. Parte de seus antigos eleitores pode interpretar a mudança como composição necessária; outra parte poderá enxergá-la como abandono da oposição realizada quatro anos antes.

André Moura retorna ao centro de uma disputa estadual depois de sucessivos movimentos para recompor espaço político. Conta com o União Brasil, com setores da máquina governista e com alianças municipais construídas ao longo de vários anos. Entretanto, enfrenta resistência dentro da própria base de Mitidieri, onde líderes já assumiram compromissos com Alessandro, Rogério ou Edvaldo. Sua principal dificuldade não parece ser entrar no palanque, mas garantir que os integrantes do palanque realmente lhe entreguem votos.

Alessandro Vieira procura a reeleição pelo MDB com Adriana Carvalho na primeira suplência e Joãozinho de Solinha na segunda. O partido confirmou o apoio a Mitidieri, nove candidaturas a deputado federal e 21 a deputado estadual. Alessandro tenta manter uma imagem de independência, embora esteja inserido em um agrupamento amplo e dividido. A campanha deverá explorar sua atuação no Senado e seu discurso de fiscalização, mas adversários questionarão a coerência entre esse posicionamento e a aproximação com o governo estadual.

Edvaldo Nogueira chega à disputa depois de sucessivos mandatos na Prefeitura de Aracaju e com o desafio de converter uma trajetória predominantemente concentrada na capital em votação estadual. O PDT apoia Mitidieri, mas reivindica para Edvaldo uma das vagas ao Senado. Sua chapa tem Joaquim Ferreira e Geraldo Teixeira como suplentes e uma nominata para deputado federal, sem uma chapa própria para a Assembleia Legislativa. A ausência de candidatos estaduais reduz a capilaridade direta do partido e obriga Edvaldo a depender de alianças cruzadas com lideranças de outras legendas.

No campo de Valmir, André David e Eduardo Amorim tentam ocupar as duas vagas como uma dupla eleitoralmente combinada. Essa unidade formal pode facilitar a comunicação, mas os dois também competem entre si pelo primeiro voto dos mesmos simpatizantes. Eduardo possui maior experiência eleitoral; André David tenta representar renovação e segurança pública. No PL, Rodrigo Valadares e Coronel Rocha enfrentam o mesmo dilema. Iran Barbosa, por sua vez, tenta consolidar o voto da esquerda crítica ao governo, mas concorre diretamente com Rogério por parte desse eleitorado.

Pesquisa aponta empate e desmonta a ideia de eleição resolvida

A pesquisa Real Time Big Data divulgada no início de agosto apresentou Fábio Mitidieri com 43% e Valmir de Francisquinho com 40% no cenário estimulado para o primeiro turno. Ricardo Marques apareceu com 6%, Emanuel Cacho com 2% e Helton Monteiro com 1%. Em uma simulação de segundo turno, Mitidieri marcou 46% e Valmir, 44%. Como a margem de erro foi de dois pontos percentuais, os dois ficaram tecnicamente empatados nos dois cenários. O levantamento ouviu 1.600 eleitores entre 28 de julho e 1º de agosto, antes do fechamento de todas as convenções.

Os números impedem duas narrativas fáceis. A primeira é a de que a estrutura governista teria tornado a reeleição uma formalidade. Não tornou. Mitidieri lidera numericamente e possui uma base muito maior, mas Valmir permanece próximo o suficiente para ameaçá-lo. A segunda narrativa precipitada é a de que o governo estaria rejeitado ou eleitoralmente derrotado. A mesma pesquisa registrou avaliação positiva relevante e aprovação superior à desaprovação. O quadro real é de competitividade, não de domínio absoluto de qualquer lado.

A proximidade também mostra que apoio de prefeitos não se converte automaticamente em voto popular. O governador pode reunir grande parte dos gestores municipais, mas cada liderança terá de demonstrar capacidade de transferir votos. Em vários municípios, prefeitos apoiarão Mitidieri para o governo e candidatos diferentes para o Senado ou para deputado. Outros poderão declarar apoio formal ao governo sem mobilizar integralmente suas bases. A eleição municipal de 2024 fortaleceu novas lideranças locais e modificou relações que existiam em 2022.

Na pesquisa para o Senado, Delegado André David apareceu com 17%, André Moura com 14%, Eduardo Amorim com 13%, Rodrigo Valadares com 12%, Alessandro Vieira e Rogério Carvalho com 9% cada, Edvaldo Nogueira com 8%, Coronel Rocha com 6% e Iran Barbosa com 1%. O levantamento ainda testou nomes e configurações anteriores ao encerramento das convenções. Por isso, seus resultados não devem ser tratados como retrato definitivo da lista registrada. A pesquisa mede o cenário apresentado ao entrevistado naquele momento; não substitui as atas partidárias nem os futuros pedidos de registro.

O confronto proporcional ocorrerá dentro das próprias alianças

Enquanto os candidatos majoritários dividem palanques, as eleições para deputado federal e estadual obrigam partidos e federações aliados a competir diretamente. Sergipe elegerá oito deputados federais e 24 estaduais. Ao todo, 1.740.240 pessoas estão aptas a votar nos 75 municípios. Aracaju concentra 421.507 eleitores, seguida por Nossa Senhora do Socorro, com 123.714; Lagarto, com 82.402; Itabaiana, com 76.700; e São Cristóvão, com 62.018. Esses números explicam por que partidos montam chapas tentando equilibrar nomes da capital, da região metropolitana e dos principais polos do interior.

Nas eleições proporcionais não existem coligações entre partidos. Cada legenda ou federação precisa alcançar desempenho suficiente com os votos de seus próprios candidatos e os votos dados à sigla. Isso significa que PSD, União Brasil, PP, PT, PSB, MDB, PDT e demais integrantes da base de Mitidieri estarão juntos para governador, mas serão concorrentes na eleição para a Câmara e a Assembleia. Um prefeito poderá subir no mesmo palanque do governador com representantes de vários partidos, porém trabalhar prioritariamente para apenas um candidato a deputado, porque fortalecer uma legenda pode reduzir as chances de outra.

O PSD homologou uma extensa nominata estadual, com nomes como Luciano Bispo, Jorginho Araújo, Maísa Mitidieri e outros representantes de diferentes regiões, além de uma chapa federal que inclui Fábio Reis, Delegada Katarina, Nitinho, Neto Batalha, Manuel Marcos e demais postulantes. Na Federação Brasil da Esperança, o PT apresentou João Daniel e Márcio Macedo entre os principais nomes para a Câmara, enquanto organiza uma chapa estadual com candidatos como Candisse Carvalho, Padre Inaldo, Professor Dudu e outros. PCdoB e PV completam a federação com candidaturas próprias, mas todos os votos serão contabilizados dentro da mesma estrutura federativa.

O União Brasil trabalhará pela reeleição de Yandra Moura e pela eleição de outros candidatos, ao mesmo tempo em que sustenta André Moura para o Senado. O PP confirmou a tentativa de reeleição do deputado federal Gustinho Ribeiro e uma chapa estadual na qual a ausência de Áurea Ribeiro, que decidiu não concorrer novamente, abre espaço para renovação. O PSB montou chapas para a Câmara e a Assembleia, com nomes como Cláudio Mitidieri, Elber Batalha, Breno Garibalde e Robson Viana entre seus quadros mais conhecidos. O MDB homologou 30 candidaturas proporcionais, sendo nove federais e 21 estaduais. O PDT concentrou-se em nove nomes para deputado federal e não apresentou chapa própria à Alese.

Na oposição, Republicanos e Avante precisam transformar a votação potencial de Valmir em desempenho proporcional. O Republicanos tentará usar a presença de Emília Corrêa em Aracaju e a força de Valmir no interior para eleger bancadas. O PL pretende aproveitar seu palanque nacional e a militância conservadora para manter representação federal e ampliar a estadual. O PSOL-Rede prioriza a reeleição de Linda Brasil à Assembleia e busca votos suficientes para disputar uma cadeira federal. A Federação PSDB-Cidadania precisa utilizar a candidatura de Emanuel Cacho para dar visibilidade às suas nominatas e impedir uma redução ainda maior de sua representação.

As chapas também terão de respeitar a exigência mínima de 30% e máxima de 70% de candidaturas de cada sexo. O cumprimento não pode ser apenas numérico. Candidaturas fictícias destinadas exclusivamente a preencher a cota podem resultar em cassação do Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários, anulação dos votos da legenda e perda dos mandatos obtidos. Em um estado com apenas oito cadeiras federais, qualquer irregularidade que comprometa o conjunto da chapa pode alterar completamente a distribuição das vagas.

A lista completa e definitiva de candidatos a deputado ainda não pode ser tratada como encerrada. Algumas convenções homologaram nomes com pendências internas, autorizações para ajustes e espaços que ainda dependem da apresentação de documentação. Até 15 de agosto, os partidos precisarão protocolar os pedidos no sistema da Justiça Eleitoral. Somente depois será possível comparar as nominatas oficiais, os números de urna, as declarações de bens, as certidões, as situações dos registros e os limites de candidaturas de cada partido ou federação.

As atas revelam acordos, mas não garantem fidelidade eleitoral

O resultado das convenções expôs a diferença entre coligação jurídica e aliança política. Juridicamente, as atas indicam quais partidos integram cada coligação majoritária, quem representa o agrupamento e quais candidatos foram escolhidos. Politicamente, porém, dirigentes, prefeitos, deputados e vereadores podem trabalhar por combinações diferentes, principalmente na eleição para o Senado.

No agrupamento governista, a dupla Rogério Carvalho e André Moura é a composição central, mas não possui exclusividade sobre todos os aliados de Mitidieri. Alessandro Vieira e Edvaldo Nogueira também ocuparão palanques com o governador. Lideranças do PP anunciaram preferências que atravessam os limites formais da coligação. Dentro do PSD, existem prefeitos e parlamentares mais próximos de um candidato ao Senado do que de outro. A grande frente governista poderá funcionar de forma disciplinada na propaganda oficial e, simultaneamente, fragmentar-se na campanha municipal.

Essa situação favorece o governador em um aspecto: quase todos esses candidatos têm interesse em defender sua reeleição ou, no mínimo, evitar um rompimento aberto com o governo. Mas o excesso de concorrentes cria riscos. Disputas por agenda, presença em eventos, apoio de prefeitos, recursos, inserções de propaganda e participação do governador podem gerar conflitos. Um candidato ao Senado que se sentir preterido poderá reduzir o empenho pela chapa executiva ou tentar responsabilizar outros aliados pela dificuldade eleitoral.

Na oposição, a divisão é mais visível e menos sofisticada. Valmir e Ricardo Marques disputam diretamente a condição de principal adversário do governo. Republicanos e PL competem pelo eleitor conservador, pelo apoio de lideranças ligadas ao bolsonarismo e pela influência sobre a campanha presidencial no estado. Caso nenhum dos dois consiga retirar o outro da disputa, Mitidieri poderá enfrentar um primeiro turno mais confortável do que enfrentaria diante de uma oposição unificada. Se houver segundo turno, entretanto, os votos do terceiro colocado se tornarão decisivos.

O que muda a partir de agora

Encerradas as convenções, começa a fase em que os documentos substituem os discursos. Até 15 de agosto, partidos, federações e coligações devem apresentar os pedidos de registro. A Justiça Eleitoral verificará filiação partidária, domicílio eleitoral, idade mínima, quitação eleitoral, certidões, autorização partidária, condições de elegibilidade e eventual incidência de causas de inelegibilidade. Partidos, candidatos e o Ministério Público Eleitoral poderão contestar registros. Também serão examinados os demonstrativos de regularidade dos atos partidários, fundamentais para validar as candidaturas proporcionais.

Em 16 de agosto começa a propaganda geral. A partir desse momento, pedidos explícitos de voto passam a ser permitidos dentro das regras eleitorais. A campanha deixará o ambiente controlado das convenções e entrará nas ruas, redes sociais, programas de rádio e eventos públicos. Em 28 de agosto começa o horário eleitoral gratuito, etapa em que o tamanho das coligações e a representação parlamentar terão peso direto na exposição dos candidatos. O governo tentará usar seu maior tempo para apresentar realizações; a oposição buscará transformar os problemas estaduais em um julgamento do mandato.

Os registros ainda poderão sofrer substituições nos casos previstos em lei, como renúncia, falecimento, indeferimento ou cancelamento. Direções nacionais também conservam instrumentos para questionar convenções estaduais que contrariem suas decisões. Isso significa que atas fechadas em 5 de agosto podem ser modificadas por acontecimentos jurídicos ou políticos posteriores. Até a consolidação dos registros, todo panorama deve ser apresentado com a ressalva de que se trata de candidaturas escolhidas pelos partidos, e não necessariamente de candidaturas já deferidas.

Uma eleição sem espaço para triunfalismo

O cenário sergipano não autoriza triunfalismo de nenhum grupo. Mitidieri possui a maior estrutura partidária, mas enfrenta um adversário competitivo e terá de prestar contas de quatro anos de governo. Valmir mantém força eleitoral, mas precisa ampliar sua presença territorial, administrar o peso de sua história jurídica e impedir que o PL fragmente a oposição. Ricardo Marques tem um partido nacionalmente forte, porém ainda precisa provar viabilidade estadual. Helton Monteiro preserva uma alternativa programática de esquerda, mas concorre com recursos limitados. Emanuel Cacho oferece ao PSDB-Cidadania um palanque próprio, embora comece distante da polarização principal.

No Senado, qualquer previsão definitiva é irresponsável. Nove nomes disputam duas vagas, os eleitores poderão formar duplas independentes das alianças oficiais e grande parte dos partidos governistas trabalhará com candidatos próprios. A composição das atas é menos uniforme do que parece, e o voto majoritário não seguirá obrigatoriamente os acordos firmados pelas cúpulas.

Na eleição proporcional, a disputa será ainda mais dura. Oito cadeiras federais e 24 estaduais serão divididas por dezenas de candidaturas organizadas em partidos e federações que não podem se coligar para somar votos. Muitos dos aliados que aparecerão abraçados nas fotografias de Mitidieri, Valmir, Ricardo, Helton ou Emanuel lutarão entre si por cada prefeito, vereador, liderança comunitária e grupo de eleitores.

As convenções encerraram a fase das especulações sobre quem pretendia disputar. Não encerraram a formação real do jogo. O que as atas registraram foi um sistema de alianças amplas, por vezes contraditórias, construído menos por identidade programática do que pela necessidade de sobrevivência eleitoral. A partir de agora, a documentação apresentada à Justiça Eleitoral mostrará quais nomes estão efetivamente habilitados, enquanto a campanha revelará quais acordos existem apenas no papel e quais serão transformados em votos.

Sergipe entra na eleição de 2026 com cinco chapas ao governo, uma base governista numerosa, duas oposições disputando o mesmo território, uma esquerda dividida, partidos tradicionais tentando recuperar relevância e uma corrida ao Senado em que aliados formais poderão trabalhar pela derrota uns dos outros. O quadro está desenhado, mas está longe de resolvido. As atas fecharam as convenções; não fecharam a eleição.

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